Marmitas frias – Ricardo Terto




R$ 35,00

 

“Ricardo Terto tem fome […] É uma marmita atrás da outra. Cheia de marmitas. As mais variadas. Tem para todo gosto. Um texto ágil. Feito de parágrafos velozes. De diálogos vivos. Escritos em raro humor-sabor. Papeando, de alguma forma, com o clássico amor-humor de Oswald de Andrade, o ódio-fodido de Ferréz, os perus-malandros de João Antônio, os tambores-tridentes de Cidinha da Silva. Todos donos de um olhar certeiro e rápido. Contistas-cronistas. Incluído aqui o jeito rapper e repentista com que este quente e apetitoso Marmitas Frias nos embala. Ladeira à frente, viela abaixo. Sempre correndo atrás. Enfrentando o baque e o batente […] O autor mesmo quem diz que já vendeu geladinho, entregou pizza. Vendeu pá de inox e revista. Ricardo Terto, não há dúvida, neste seu bem-vindo livro de estreia, sabe o que está dizendo e vivendo. Para a nossa fome voraz de leitor, eu (a)provo e recomendo.”

do prefácio de Marcelino Freire.

 

Eu cresci na periferia. Não aquela periferia que você respeita, aquela periferia onde os turistas-sociais vão curtir um sarau, a periferia que a novela copia, favela hi-tech, visita de ator global, celebrada em letras de música. Não essa. Cresci na cada-um-por-si, na se-deus-quiser-deus-ajuda, no amontoado de sonhos que sobraram ali, nos escombros humanos da cidade. Nunca fui malandrão, todo jão, nunca cuspi gíria pra assinar a carteirinha do gueto. Eu era nerdão, lerdão de briga, bicho acuado, falava baixo, apanhava na hora da saída, pensava rápido demais e isso parecia um problema. Imaginava alto demais e isso parecia um problema. Meu pai, nordestino crescido na roça, loiro do olhos verdes, comia carne pra caralho, cheirava derby vermelho, reclamava dos moleques, bigode grosso ex-alcóolatra, católico não-praticante, não permitia abrirem o refrigerante antes dele se servir. Minha mãe, preta mineira, veio de Alfenas com várias irmãs, ex-doméstica, ex-crente, não vota há 30 anos, firme nas fés que pode conhecer, carimbou no mundo eu e meus três irmãos, todos sobreviveram, menos eu que resolvi virar escritor.

Desde criança eu estou sempre indo embora e sempre voltando. De casas e histórias e pessoas. Agora a história é essa. Marmitas Frias, meu primeiro livro. Mastigue com força que a sutileza virá no arroto. São crônicas e contos sobre o intervalo. A hora do almoço é um intervalo, a infância é um intervalo, uma conversa é um intervalo, o aprendizado, a perda. Intervalos.

Eu cresci nos intervalos. Não esses intervalos que você respeita. Cresci no intervalos de sonhos que sobraram ali, nos escombros humanos da cidade, levando minhas marmitas frias.

Ricardo Terto