Conversa – Leonardo Freitas Ferreira

R$ 25,00


 

Conversa é uma história em quadrinhos que utiliza apenas imagens em giz de cera preto para narrar as sensações abstratas de uma conversa de fim de relacionamento.

 

Leonardo Freitas Ferreira

Brasiliense nascido em 1994, estudante de artes plásticas da Universidade de Brasília e professor de desenho, pintura e gravura em ateliês e cursos de artes. Ilustrador dos livros lundu e (Um esboço de) lundu da autora Tatiana Nascimento, artista plástico que utiliza das técnicas desenho, pintura e xilogravura e autor auto publicado de Ensaios Futurívoros.

 

 

do prefácio Leo e a criação do tempo de Surina Mariana

Perguntado, uma vez, sobre a diferença entre nirvana e samsara, o sábio não-dualista H. W. L. Poonja respondeu com uma fábula.  Era uma vez um monge jovem que, como todos os monges jovens, queria que o mestre lhe ensinasse o caminho para se libertar do sofrimento e atingir a iluminação. Já estavam juntos há algum tempo quando o mestre aceitou transmitir o ensinamento sobre a natureza do sofrimento, “mas antes de começarmos, vá ao rio e me traga um pouco de água”.

Sentado na beira, mão na correnteza agarrando a vasilha, o monge enxerga uma mulher parada na outra margem.  Ele se apaixona, ela também, e os dois caminham dali para a vila do pai da moça, onde casam e têm dois filhos. São felizes, mas agora já é quinze anos depois, e chegamos à temporada de chuvas. O rio no qual ela e ele um dia se conheceram começa a transbordar, arrastando em enchente a casa, a mulher e as crianças.

Sentado na margem, o monge chora. O mestre ouve e se aproxima, arrancando da mão a vasilha que o aluno segura dentro da água.

Basta um pensamento, e você cria o tempo. Um pensamento, e nasce o espaço. Conversa é como uma porta que se abre. Se atravessar, o leitor entra no samsara do personagem: um espaço-entre, localizado nas coordenadas geográficas de um aqui que se encontra com um lugar imaginado. O monge viveu quinze anos de casamento e de vida em família, ou foi só um sonho, um lapso de pensamento? Não sabemos. Nem é importante.

Do lado de lá da porta do Conversa, o mundo que começa numa mesa de bar vai se desdobrando na chama de um isqueiro e depois na de uma lanterna inteira, e o que elas revelam é a unidade entre realidade e a história inventada. Pelos movimentos silenciosos do protagonista, acompanhamos aquilo que o move por dentro. O desejo de amor e o medo do ataque, e a gente se pergunta onde ele está.  Acontecendo alguma coisa, é só fantasia naquela cabeça? Tempo real e um tempo paralelo, imaginativo, correndo na veia do traço grosso em giz de cera, irreversível no presente, que não se apaga com borracha.

Lembro de uma noite com o Léo. Ele tinha uma pasta e foi me mostrando um monte de ilustrações soltas. Fora o traço, elas não tinham mais nada em comum – técnica, dimensão, tema, coisa nenhuma. Mas tinha uma linha que ligava uma à outra: parecia que todo desenho era retrato de uma história suspensa que tinha parado na metade. A próxima ação, prestes a acontecer, iria mudar pra sempre o curso da vida de todos os envolvidos na imagem.”